Reparação

Release por Arthur Dapieve

Não é incomum uma artista ficar marcada a ferro pelo seu primeiro sucesso, do qual não consegue se livrar. O modo como Dulce Quental se associou a Eu sou free, no entanto, é bem particular e sutil. Não propriamente pela música de 1984, estourada ainda a bordo do Sempre Livre. Mas pela mensagem subliminar anunciada a cada execução – tantas, tantas – nas rádios. Obra e autoria numa frase só: “Eu sou free, Sempre Livre” Ela se mostrou assim, livre, desde o momento em que aquele grupo só de garotas se desfez.

 

Dulce enveredou por uma carreira solo de fato autoral, seguindo o próprio nariz. Se isso significou que ela não mais se aproximaria dos patamares comerciais alcançados tão fugazmente pelo Sempre Livre, significou também uma solidez artística que sustenta, trinta anos depois, os três álbuns criados em rápida sequência, antes de um longo hiato: Délica (1986), Voz Azul (1987) e Dulce Quental (1988). O seu lançamento em formato digital nos permite reacessá-los com o benefício de uma perspectiva histórica, não imediatista, e empreender uma reparação que coloca Dulce no seu devido lugar.

 

Dulce está entre os melhores letristas surgidos no Brasil durante a explosão do rock. Esta não é uma afirmação de pouco peso, levando-se em conta que aquela geração 80 contava, entre outros, com Cazuza, Renato Russo, Arnaldo Antunes, Herbert Vianna e Humberto Gessinger (ela gravaria composições destes três últimos). A sua produção nos anos de afastamento dos estúdios, só encerrado com o CD Beleza Roubada, de 2004, apenas reconfirmou tal lugar de honra. Entre outras, Dulce assinou Cidade partida, com os membros do grupo Cidade Negra, e O poeta está vivo, com Roberto Frejat, parceiro em quase todas as faixas de seu recém-lançado CD, Música e Maresia.

           

Dulce Maria Rossi Quental, carioca de 1960, teve uma trajetória escolar-acadêmica que explica em parte a delicadeza e a densidade de suas letras: estudou saxofone e canto, estudou Ciências Sociais e Filosofia (e, mais tarde, Jornalismo). Musicalmente, uma influência decisiva foi o jazz escutado na infância, nos LPs do pai. Fundindo-o à música popular brasileira e ao rock nacional, ela produziu o que a crítica chamava de new bossa, tanto aqui quanto no exterior, com Everything but the Girl ou Sade.

 

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