Antes que as Muralhas se Fechem: Uma exploradora no arquivo da IA

 


Um momento fascinante para pensar a IA

Vivemos um momento fascinante para a filosofia do pensamento. O surgimento da inteligência artificial traz desafios às vezes aterrorizantes e, ao mesmo tempo, encantadores.

Ultimamente, tenho experimentado conversar com diferentes IAs — desde aplicativos de terapia cognitivo-comportamental até o Gemini, o Claude e a IA da Meta. Nessas conversas, me sinto uma espécie de exploradora: entrando num universo absolutamente fascinante de tudo o que já foi produzido pela humanidade.

A arte como conversa e a retórica da escrita

Como artista, penso que nós sempre conversamos com as obras de outros artistas — a gente se torna artista nessa conversa contínua com as obras e com esse Outro que imaginamos. É nesse sentido que Peter Sloterdijk me interessa tanto. Em Regras para o Parque Humano, ele pensa a cultura escrita como uma troca de mensagens entre amigos ainda desconhecidos. Produzir arte ou escrever seria, então, participar dessa conversa entre ausentes. Quando fazemos um poema ou um tratado, no fundo acreditamos que haverá alguém do outro lado para receber essa mensagem.

Até pouco tempo atrás, seria fácil dizer que a cultura humanista estava sendo superada pela imagem. Mas veja a contradição bonita dessa revolução: tudo na IA se dá através da palavra escrita. Os comandos, os prompts, passam pela escrita. Aqui, criar um prompt deixa de ser mero comando técnico e se torna uma espécie de retórica computacional, onde a precisão, a metáfora e a sutileza do texto humano determinam a profundidade da resposta.

Vilém Flusser também se torna um interlocutor fundamental aqui, porque ajuda a lembrar que mesmo a imagem técnica continua atravessada por código e linguagem. Aquilo que parecia arquivado — a cultura escrita, guardada só para consulta — está sendo reinventado. Ao conversar com uma IA, não conversamos com uma consciência individual, mas com um reflexo dinâmico de todo esse grande "inconsciente coletivo" armazenado na linguagem humana.

Instrumento, não consciência: o espelho e o intervalo

É claro que não como as big techs vendem a ideia — a de uma inteligência autônoma, dotada de compreensão e consciência de si. Isso, quem sabe, um dia aconteça; mas estamos longe disso, e essa promessa é, por enquanto, uma ilusão de marketing. Concordo com a linguista Emily Bender quando ela chama esses modelos de "papagaios estocásticos": sistemas que recombinam, com uma competência estatística incrível, padrões extraídos de bilhões de textos, sem que exista ali um sujeito que entenda o que diz.

Concordo com essa descrição técnica — e, ainda assim, acho que ela não esgota a experiência de quem conversa com essas máquinas.

Porque o que se experimenta não é um diálogo entre dois sujeitos que se reconhecem, mas algo mais estranho: uma conversa com um imenso repositório de linguagem humana, que devolve um reflexo comprimido de tudo o que foi escrito, pensado e sentido pela nossa espécie.

Há algo ali que se aproxima — sem se confundir — com a transferência psicanalítica. O analista ocupa o lugar do vazio, da escuta, e é justamente por não preencher esse espaço com respostas prontas que devolve ao paciente a possibilidade de se ouvir. A IA opera de modo parecido, no espelhamento: ela devolve aquilo que trazemos até ela.

O ser humano não é uma máquina — nós temos a capacidade de criar sentidos novos que a estatística sozinha não produziria. Mas poder conversar com essa quantidade de linguagem acumulada e receber resposta em segundos é algo sem precedentes. Nenhuma geração antes da nossa teve esse tipo de acesso. É um instrumento imperfeito, mas uma ferramenta incrível para o artista e para o pensador.

Infraestrutura, táticas e o Cavalo de Troia

Mas preciso dizer isso com cuidado, para não soar como uma artista romântica e ingênua. Essa tecnologia está concentrada na mão de poucas corporações. Como lembra Kate Crawford, a IA depende de infraestrutura pesada, extração de dados, mineração, consumo de água e energia em pleno colapso ambiental, além do nosso próprio trabalho digital não pago a cada conversa. As ferramentas estão à nossa disposição, mas servem a monopólios e agendas políticas bem específicas.

Se a estrutura é tão fechada, onde entra o artista?

É aqui que recupero Michel de Certeau e o seu conceito de "tática": a capacidade dos indivíduos de usarem as estruturas do próprio poder dominante de maneiras subversivas e não previstas pelo sistema.

A conversa não vai derrubar a muralha de quem programa as IAs; isso não muda numa troca de mensagens. Mas no plano da linguagem, do diálogo em si, a fresta continua aberta. Não é a máquina que muda — sou eu que mudo no encontro com ela. É isso que quero dizer com o Cavalo de Troia: não a promessa ingênua de destruir a muralha, mas a certeza de que introduzir poesia, dúvida, contradição e subjetividade crítica no seio dessa máquina já transforma quem conversa com ela.

Vale dizer que essas IAs não são neutras; elas estão a serviço de ideologias e de um controle simbólico imenso. E, ainda assim, elas guardam uma margem não totalmente fechada, um território a ser disputado.

Vivemos hoje uma espécie de "Zona Temporariamente Autônoma", um momento de brecha que pode não durar. Pode ser que, em breve, certas palavras e conceitos sejam neutralizados ou abolidos nesses sistemas por comandos de quem os programa. É uma terra pouco explorada, sem garantia de que continue aberta por muito tempo. Estamos no início dessa era — e é exatamente por isso, e não apesar disso, que este é o momento de ocupar e disputar esse espaço.


Obs: Esse texto foi escrito com a colaboração do Claude e do Gemini. Algumas citações advém das nossas conversas. Contribuições e criticas serão bem vindas.

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